Poesia e Ação jovem

Raimundo Justino

Um quarto colorido, cheio de ursinhos de pelúcia; crises emocionais causadas pela perda de patrimônio familiar; dificuldade para se acostumar com lugares humildes e com a rotina de trabalhador; mudança do cabelo para poder se encaixar numa vaga de emprego...
Esses são cenários da vida de jovens personagens de telenovelas atuais. Um mundo disneylândico, quase um paraíso na terra...ou não? Será que a juventude é realmente retratada pelos grandes veículos de comunicação? Ou na verdade ela é moldada pela mídia.
Acredito que nem uma coisa nem outra. De algum modo, as novelas e programas para jovens priorizam determinadas camadas e grupos sociais. Não há como negar que o público que frequenta e assiste “Altas Horas”,por exemplo, tem um  comportamento padrão da classe média urbana brasileira. Assim sendo, muitas de suas opiniões e ações são mais do que “conservadoras”, são despolitizadas, já que o pensamento político assusta os grupos que tem no individualismo seu modelo de vida. Não se posicionando frente à questões como o papel desempenhado pela Mídia, esses jovens pregam uma falsa neutralidade.
Mas há outros lados. Temos outras linguagens e canais nos quais as visões sobre são mais próximas da diversidade juvenil. Um movimento forte na região metropolitana é o dos Saraus. Inúmeros grupos, quase sempre protagonizados por jovens, tem descoberto na literatura – mais especificamente na Literatura Periférica – um caminho para dizer a
todos o que são e o que querem, ou seja, estão deixando de ser meros receptores estão produzindo coisas interessantíssimas.
Nos próximos meses, falaremos aqui nessa sobre alguns desses coletivos. Hoje gostaria apenas de apresentar a história de Sandra Mara Herzer, que considero com uma das precursoras dessa Literatura Marginal.
Enfrentando problemas familiares desde que veio ao mundo, Sandra passou a morar na rua e a se envolve ainda muito pequena com pequenos delitos, o que a levou várias vezes à FEBEM (atual Fundação Casa).  Lá a garota passou pela formação maior que pode existir – a da violência – que ela descreve sem seu único livro, “A Queda para o Alto.”
Após algum tempo, a escritora conheceu o Senador Eduardo Suplicy, que a ajudou a iniciar uma recuperação. Foi um período maravilhoso no qual ela ganhou auto-confiança e arrumou trabalho fixo. Infelizmente, os fantasmas de toda a tortura que sofreu fizeram Sandra ter sucessivas recaídas, até seu suicídio, pulando do alto de uma ponte da cidade.
Esse é o trecho de uma de suas poesias.

 

Mataram João Ninguém
Quando o próximo sangue jorrar
daquele por quem ninguém irá chorar,
daquele que não deixará nada para se lembrar
daquele em quem ninguém quis acreditar (...)

Tantas mãos, tantas linhas incertas,
tantas vidas cobertas, sem ninguém pra sentir.
Tantas dores, tantas noites desertas
tantas mãos entreabertas, sem ninguém pra acudir.

Qualquer dia vou despir-me da luta
pisar em coisas brutas, sem me arrepender.

Tão difícil ver a vida assassinada
quando estamos já tontos pra tentar sobreviver (...)

Na televisão, o aguardo da cotação
um instante ocupado, para dizer morto João Ninguém.
Mas a aflição ataca, a cotação subiu ou caiu?
E João morreu... ninguém ouviu.

Eu vou distribuir panfletos,
Dizendo que João morreu
Talvez alguém se recorde
do João de que falo eu.

Falo daquele mendigo que somos
Pelo menos em matéria de amor,
Daquele amor que esquecemos de cultivar
O qual com tanto dinheiro, ninguém jamais coroou.